A estética do distanciamento pt.2 – O fato da ilusão

Publicado: 19/02/2010 em Contemporaneo em ebulição
Tags:
Loneliness and illusion - unkown

Loneliness and illusion - unknown

Não há, exatamente, uma razão explícita para que busque o significado das coisas. O entendimento se faz a um nível sensorial e não por uma cartela semântica. Esta é a razão da insensatez de expulsar da vida os intentos emocionais e se formarem discursos dizendo-se completamente contentores da amplitude das questões que estão e estarão sob controle. Por isso, trancafia-se pássaros para que seus cantos lembrem os voos que eles não farão por estar sob seus cuidados. A incapacidade dos pássaros se dá pelo desejo de posse sobre algo que denuncie sua própria fraqueza. O cuidado é uma coisa perigosa, venosa e pretensiosa. Sempre estará querendo ficar a um passo do fato que o outro vive para evitar que passe por sua experiência; ao mesmo tempo, rege o fato de não se expor à frustração de ver um outro demonstrar o quanto é incapaz naquilo que existe. O cuidado sentido, por outra via, é um ato silencioso que a tudo cerca, nos limites individuais e semeia e rega e aloca o sol propício e canta hinos de celebração, cânticos de ciranda e nada quer em troca, a não ser “ser” um dos fatores que contribuem para o belo – mesmo assim, o cuidado é um sentido egoísta, pressupondo ao outro necessidades racionalizadas por uma fraca análise de um movimento de vida. Há razão para encontrar o sentido?

Cuidar-se é a única forma viável de “existir com” e se apoderar do intento do cuidado. À medida em que falham as coisas, um reduto de sobrevivência emerge e se multiplica em anticorpos para proteger o que é necessário. Cuidar de si é cuidar do outro e da vida e de todo o ambiente em que está inserido o olhar que ultrapassa o desejo e que se conforma em seu altruísmo.

O altruísmo tem ranço de chão mal varrido, tanto pelo que escorrega o poder praticado, tanto por que a poeira é sinal de descuido, no mundo das imagens. Quem saberá o que se passa na cabeça de alguém que abaixa sua cabeça em menção de respeito a outra, como símbolo, enquanto murmura estar falando silenciosos abruptos impropérios por mantê-lo na situação de embate de poderes. A porta parece aberta, tudo deve transparecer claro, mas os imperativos estão soltos no passado, só se vê reminiscências no límpido chão em que se varreu coisas que incrustaram nas células donde se pisa, em metástase feroz.

Pena de que quem percorre os caminhos e não sacode a poeira. Não entende que o que aconteceu ou acabou de se ver é algo que já pertence a um passado longínquo, se não lhe der o sentido apropriado de acontecimento que agrega ou reorganiza mas cuja reverberação só retém sentido de acordo com a importância com o que se dê o fato e a ele.

Pobres dos que não se deixam levar pelo flúido vital da iluminação para a escolha do que há de ter importância na vida. Pobres dos que são flagrados em pleno senso de partida de si, fragmentados e pressionados por vilões que sempre são infelizes. Pobres dos que valorizam a infelicidade pois se tornaram a maldição de si mesmo, o tédio do reflexo que vem de antes dos olhos trazer a alma exposta de partilhas, reles fragmentos de dor cultivada em sua menor partícula, uma estrela extinta, um amor não vivido, um corpo distraído dos corpos das coisas que interagiu.

Há razão para procurar o sentido?

O sentido se sente, com a cabeça feita de saúde e atitude, provida de senso de utilidade e estratégia, livre dos movimentos mesquinhos dos mesquinhos movimentadores de morte que desejam trazer sua tradição como marca que se coloca na lua ou em Marte; bandeiras fincadas tão minúsculas de olhos nus a telescópios crus que mostram o quão invariavelmente é medíocre buscar seus pequenos problemas nos momentos de pequenos alcances de uma vida. Só se pertence à vida vivendo. Só se vive à vida cuidando. Só se sobrevive mantendo-se devidamente claro de sua própria significação diante da vida, dos fatos e o tamanho enorme do Cosmos que, além de tudo, é uma pequena porção do que o conhecimento humano detecta, mas não toca.

Comentários
  1. Marli Reis disse:

    Eu passei, claro que passei!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s