A arte do perdão

Publicado: 22/03/2010 em Contemporaneo em ebulição
Tags:,
Old man - unknown author

old man - unknown author

Qualquer um está a um passo de perder o controle da visão; e começa a observar que um só existe e não sabe fazer com essa ausência tamanha em revelação, este mundo que nem desvanece: num piscar de olhos todas as verdades, todas as configurações das pessoas, delas ao mundo, pra si mesmas e a seu respeito, tornam-se um hiper-realismo aberto ao surreal. Palavras não são suficientes por que já não existem dentro de um plano de necessidades discursivas. Tudo é diferente, simplesmente. Mantém-se um certo ar de deja vu para que se tenha a ilusão de controle levemente afastada de qualquer percepção da perversão ou maldade. Haja Kafka!

Qual a medida da maldade e da perversão? Não acredito nesta história de que seja genético – obviamente é algo que se vai adquirindo. A idade, a velhice, as vivências nestes transtornos, o que justifica a perversão? Existe algo que justifique?

Tantas são as regras que escondem um conceito que a inocência permanente dá ao autor o benefício da dúvida, um certo afastamento de seu próprio corpo, uma transcendência paradoxalmente transgressiva em que se vai traçando esboços cada vez melhor definidos nesta experiência individual que é a que carrega as cores e dá uma satisfação íntima de passar pela vida com sua marca. Trazer ao foco e manter o fato obscurecido viram vício.

Certamente o gosto pelo ato é muito diferente do gosto pela ideia, mesmo que, enfim, ambos resultem, reverberem, sem sequer mecanismos de participação ativa – embora agir dê o tal senso de protagonismo, uma subjetividade realizada além do nome que carrega e que se deseja que a tal tenha sido obrigatoriamente atrelado os diversos adjetivos pelo qual tantos riscos correu. O autor dos caminhos da vida se contempla bárbara e vaidosamente frente ao espelho. E espera o retorno da reversão dos fatos, quando se esbalda em seu riso histérico. A marca é cunhada, há de se superar – eu vi!

As idades, estes registros progressivos de cartas à vida ou à morte, o desafio pessoal todo poderoso ao Grande, a chance de incrustar-se sutilmente no seio da famíla ou de alguma outra instituição que se sirva a projetar imagens grandiosas como realizadores, tudo arde no silêncio das chuvas, enquanto a grande realização fica sob os cobertores distantes do alcance de algo que entrelace ao conhecimento de cunho social. O silêncio é o prêmio conquistado. Ai de quem se satisfaz por oralizar um ganho, será invejado. A conquista solitária ou compartilhada entre os pares é festejada com a mesma camada de sutileza abrupta como que se ergue taças e se brinda, com os copos quebrando, derramando a porção do sangue adquirido.

Ele agora dorme seu sono tranquilo. Nunca consegui compreender e não é agora, mesmo que ela venha assumindo as poses de mantenedora das situações criativas onde perversamente continuam agredindo uma história de fé, confiança e amor  – coisa que já escorre pelos ralos, em lamentos ruidosos dentro de mim e que melhor me explica a dúvida eterna: alguém tem o poder de perdoar a outro alguém? Quem faz, sabe muito bem o que está fazendo, a qualquer tempo, em qualquer idade.

Comentários
  1. Acredito que esta frase resume tudo o que disse.
    ” Quem faz, sabe muito bem o que está fazendo, a qualquer tempo, em qualquer idade.”
    é interessante que precisemos escrever tanto e pensar tanto…conquistando em silêncio nossas próprias respostas aos questionamentos.
    Acredito sim, que tudo o que procuramos está sempre em algum lugar dentro de nós apenas não nos conhecemos o suficiente ou estamos meio desorganizados dentro de nós ou quem sabe tenhamos caixinhas de surpresas para nos surpreendermos ao longo dos anos e não sermos monótonos e sem graça?
    Recordo-me como chorava, pq amo a inocência a pureza da alma, e como sentia-me mais agredida quando as pessoas me decepcionavam com ciúmes e espírito competitivo, de como a inveja me fazia mal e ainda faz, e porque não percebia essas coisas…eu dizia : porque as pessoas insistem em roubar de mim o melhor que tenho?
    Minha confiança no próximo? Mais tarde criei uma casca , um tipo de calo contra essas coisas…mas ainda tenho saudades de mim…

    • Erico Baymma disse:

      É Adriana
      Muitas vezes nos dá a saudade do que somos e acho que é nesse instante que a gente comemora o que a gente está construindo. Este caminho é o de seguir: construção!
      Quando vir o mínimo sinal de competição, acredite e esmiuce, se confirmar, cai fora! Mas dá a dica do que você está saindo, quem sabe “o outro” se toca.
      Olha, o próximo é sempre igual em medos, vazios e saudades de si. Estamos nos reconstruindo, conscientes!
      Beijão
      érico

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s