A entrega

Publicado: 12/05/2010 em Contemporaneo em ebulição
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Dark and green into dawn - EB

Dark and green into dawn - EB

Um contratempo latino insurge no peito incandeado, uma nova música em ebulição – daquelas que nunca serão da parada de sucessos  (ainda bem!, estou salvo em meu pequeno reduto de obscuridades e especialidades). Nada há de concreto no mundo do som que fervilha o andamento do sangue; tudo é volátil, volúvel, por isso comprometido com a essência daquilo que faz ferver. Tantas marcas passadas e o coração bate feito criança. ‘Nada será como antes”, nunca, já dizia o cumpade Milton Nascimento dos mil tons que surgiriam de sua pegada e eu, sem querer entenderia.
Quer dizer, as coisas que fluem não são pra serem entendidas, pertencem ao lugar em que o sentimento está, e não está em nenhuma academia. Não há academias para isto, por isto elas rejeitam o que bate com força e desentendimento estatísco. O racional se remexe pra entender e nada confere. A inquietude é materia de símbolos projetados na mente. Se há coragem para a autoria, que se confira, teste o pulso, o olhar, os erros e acertos, tudo estará vibrando em ondas cardíacas, derrames de ordem do infinito, mares sobrevoando as constituições, marés revirando o que se pensa saber. Nada a si sabe, é uma aposta. Pra quê tanta resposta?
Elucidando a inquietude imprevista, vem um senso de voz macia que diz baixinho: É!, o corpo foi feito para mover-se. Há os que gastam energias nas academias e corridas cotidianas para não entender, ou enganar-se sobre o que entende, para que as pulsões se acalmem – como fossem domesticáveis. O corpo embala os braços, rebola o eixo, transpira como respiração e os olhos ressaltam tudo, nada negam. Os olhos são companheiros do presente, passado e futuro. Companheiros do porte do indizível: revelam tudo, até o que não se quer ver. Tudo se combina em um corpo que tenta acordos nada articulados, senão nos próprios movimentos e descompassos a que tange a vibração do algo mais impermanente: a vida.
Bem vinda, vida! Corre por mim feito garoto maroto, danado, que lhe dou cascudos fortes e você revida sem que possa dar um ai! Salta meus preconceitos, embaralha as ordens desta roda que, não cíclica, eliptiza as vestes que damos às coisas. Faz-me mentir pra mim para que eu saiba uma pequena porção da verdade, pelo menos. Estou pronto. Estou entregue.
O corpo levita e chega ao destino indizível. E dele só voltará quando a ilusão não mais aguentar saber que deixou de ser verdade o seu poder de reafinar as cordas em que a vida tensa – e como sombrinhas nos doamos ao equilibrista, vida, que coordena o caos e a assimetria dos compassos desta nova música. Vida e música, tomem meu corpo pois já lhes pertence!
Comentários
  1. Afonso C. disse:

    É, meu querido Erico, as pulsões do corpo sempre serão fronteiriças com o universo da natureza, como tem de ser, e tão bem atestado aqui por você.

  2. Poesias e cancoes disse:

    Nem sempre são entendidas ou interpretadas da maneira que gostaríamos a música que nasce em nós.Muitas vezes ela é o nosso segredo, a essência que nos faz tão únicos, tão diferente e tão iguais…algumas vezes se traduzem em peças, óperas completas, concertos,….outras vezes é o som do violino , do sax , do jaz …às vezes o som de um violão desafinado para alguns, mas não é.O som ouvido de modo deturpado muitas vezes é o desassossego da alma amarga e que vê defeito em tudo , que critica tudo…Que não se lembra dos tempos de criança dos violões imaginários, tão pequenos e de cordas que nem com muito boa vontade se afina…
    Nossa música é parte de nós, parte da alma consolada, alegre , ou enluarada, triste e que ainda canta e que celebra com alegria a vida ou apenas contenta-se em viver…

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