
“O homem é um ser social”, esta é uma afirmativa que persegue entusiástica ou persistentemente. Acho que, como todas as afirmativas, ela vem junto com todas as afirmativas positivas “para um mundo melhor”, ou explicando-o de modo a que chegue à beira do aceitável. Não é fácil aceitar o “presente” das coisas e a vida mantém um passado tantas vezes insustentável.
Quais são os limites em que a realidade é capaz de sustentar uma verdade, um saber?, ou melhor, qual o tempo de exercício de algo para que continue sendo uma parte pertinente à realidade? – O que estou procurando saber mesmo?
O quanto existe de mim nesta realidade, no que sou ou que estou? O que me consiste, o que me contém? – Chegar a pensar que muito do que digo que sou é muito mais um passado do que um presente vivido, exercido plenamente, isto chega a arder, literalmente, nas juntas do verbo semi-esquecido.
Havia um rapaz, isso eu me lembro. Era entusiasmado e tão amoroso que chegava a quase se transportar aos confins da carência. Ela me disse que somos todos carentes. Eu relaxei.
A pequena menina-a-ser atravessa o inteiro de três passos, repleta de um entusiasmo que eu conheço e me abraça como se fôssemos vitais amigos. Ela é um pingo. E somos, passamos a ser. Sua mãe diz: “Coitada da minha filha, ela é tão carente!”. Corrijo-a imediatamente, sem pensar: “Não, querida, ela não é carente, é amorosa!” – Juro que vi um espelho de vida!
Não houve muito entre o ser e o exercer, a não ser o grande hiato chamado social que se entranha nas vísceras de uma realidade alheia e a transforma no que bem quer. Diz-se um juiz, da justiça, essas coisas de afirmação tão absoluta, repleta de convicções, que estampam um inteiro de repressão, melancolia da aceitação, depuração da vitalidade do senso humano, todas as coisas que fazem pensar que envelhecer é acúmulo de conhecimentos e experiência que tem a capacidade de chegar ao todo de um pingo e sobre ele decifrar o ser da realidade.
Os pequenos delitos cometidos são reflexo da incompetência e dos grandes descasos em que alguns se apoderam, em suas artimanhas mesquinhas, e corrompem os mais frágeis pela vaidade do crédito.
Desprovido destas coisas crédulas, o vento varre as páginas pregadas nos postes. As luzes espantam a cegueira. Os postes são vulgares por crerem sistematicamente nas idéias que assoberbam o mundo das carências, eles precisam da estrutura de cimento sem pensar que a terra da maresia é a reprodução da essência da vida e não da essência humana. A humanidade não caminha, é sabido. A vida corrói pilares prontamente substituíveis por novos de alta tecnologia de longevidade à míngua. A vida existe, os pilares são convenções tão fashion como a necessidade de consumo, a sociedade do espetáculo.
Creio no delicioso arrepio que varre a grande coluna das coisas que me sustentam e me reafirmo. A musculatura destensiona e tenho um sono mais suave, uma vez!, cada dia… O colchão onde deito minhas práticas pode ser um tanto quanto mais envolvente, macio, poroso e não me caberá nunca num formato marcado por um único e mesmo uso. Sôo um levitar, não deixo marcas rascantes de um romantismo anacrônico, verdades industriais.






Dicionário Cravo Albin

Gostei muito deste poema e acho até que identifiquei-me com ele.Adorei a resposta dada a mãe da menina a respeito de sua atitude.Como são equivoados os julgamentos que se fazem a respeito das pessoas, porque eles tem que ser feitos? Porque não podemos simplesmente admirar o outro e extrair do outro o melhor?Amorosa!ao invés de Carente!ai …prá mim isso valeu quase o texto inteiro,talvez porque eu tenha visto meu reflexo ali naquela menininha!rsrs
Lindo descanso o seu e de todos que tem o seu próprio descanso, abdicando-se das marcas que outros possam ter feito.Flutuante sono como os sonhos em nuvens de algodão!Lindo texto que pude ler com muita sensilididade,sentindo cada palavra, cada verso,cada escrita.Parabéns
Infelizmente os costumes não acompanham o que a cultura industrializada mostra – aliás, ela está tentando ver se entende mais o cotidiano para não produzir tão mais do que a realidade.
O que digo é que a mãe da criança recebeu o mesmo tipo de pressão, quando criança, e ainda hoje sofre para se libertar de tantas opressões, assim como todos nós, vivos, reproduzimos ou somos reprimidos em diversas de nossas ações e até pensamentos, de uma maneira cruel.
A criatividade é um começo de libertação a partir da observação de um mundo mais amplo, que é de onde vem todo o material que nos estimula produzir arte, viver e emanar o que escolhemos e nos embasa em nossa construção, em toda a dimensão da condição humana.
Legal que este tenha lhe tocado de forma tão especial. Espero que acrescente e a ajude a ver o quanto você pode estar mais livre do que se transmite socialmente.