
“Eu canto e sei” que nunca serei, pois trago um ranço de Vitória e Marie Antoniette, o tempo estendido do poder e a decadência suave do descaso, a me contornar o corpo em aura celestial. Estou vivo neste espaço sideral do carro sem freio, do trem que tá feio, da proteção de uma amargura antecipada, de uma função indiferenciada para prover vazios substituíveis, de dentro de tantos impulsos retroativos com uma coragem auto-imune. O que digo é constatação de tempo e espaço e exercício – antes diria coisas atribuídas a mim, o que nem sempre diz pra que vem e por quê senão destruir.
A destruição é ordem para o caos e nele descobrir algumas teias interessantes de tramar, outras de pertencer, outras de nem querer saber. Estamos destruindo sempre, é necessário. Somos rastros de uma história bárbara sem sentidos afeitos às sensibilidades, muito mais às distorções de apresentar algo convivível, algo metaformizado com verniz entre sorrisos amarelos de pura padronização das mentiras que se esquece que se fala, se pratica como fôrma concreta de um bolo mofado na receita.
Os perspicazes antecipam os fenômenos em seu sarcasmo inteirado da situação do lado em que está e torna verdadeira a mesma besteira do lado em que não está, polêmicas serenas de um mundo oco, sem vazios. Vazam normas como se fabrica sabão: o homem só sofre quando estatalado no chão, se não for um jornal apresentando o gol – chance que terá de recuperar mais a respeito de dignidade pelo suor ainda pingando no sangue invisível para os vivos e ainda virar samba; o homem em suas estripulias é refém da liberdade, pela qual se torna luta para servir a um sistema que mais o aprisiona; o homem ama como um autômato, concentrado em não perder sua virilidade em mais uma distração.
Puleiros contêm galos e galinhas que assistem a TV para tornar sua vida um sucesso e espalham a nova moda como súbita e convicta fórmula; os que não os seguem estão perdendo a chance de escaparem da maldição dos fracassados. A história apresenta mitos falhos, e o cotidiano apresenta heróis em quebra-galhos mambembes de histórias rotas, de inrisíveis histórias pelo que se aquietam pela conquista do sorriso alheio dos alheios às próprias vidas: vidas invadidas por descasos da intimidade e desconhecimento de qualquer noção do respeito e individualidade.
Ouço vozes há anos, vozes que repetem coisas mal-resolvidas, vozes estupradas por coisas que nem pensariam em querer adaptadas às suas vidas, em seus discursos. As palavras tremem em um mal gosto convicto dos formalismos anacrônicos. Pessoas tentam se refazer nas pequenas tramas do cotidiano rechaçando o que é sincero para pensar em não verter bobagens e saber um pouco das dimensões e limites possíveis a conquistar.
As malditas minúcias da realidade já foram todas faladas, fazem parte da história dos livros que compõem parte do meu repertório, em que encontro reproduzida ou argumentada nos caminhos sábios da pertinência atemporal. Procuro lembrar qual a maldição inédita, nesta junção, me faria tratar inusitadamente do ocaso. Também por vaidade, muito menos, mas por auto-construção. Expurgo o de dentro para uma suave redimensão de meu novo esboço, o eu possível, antes e apesar de toda a cercania desta grande taba. Continuarei trabalhando com afinco para estes e novos fins.






Dicionário Cravo Albin

Não penso que não construimos coisas novas e que praticamente nosso repertório seja uma repetição.Apenas os mesmos sentimentos que passam em mim , em ti e em qualquer ser humano; passam por nós, através de nós como o vento. São movimento e vida… Não são caos, mesmo que as vezes sejam cinzas, não são desordem embora as vezes pareçam bagunçados, só não nos encontrou com paciência para compor cada coisa em seu lugar. Toda mudança para o novo proporciona bagunça ainda que momentânea. Pode ser uma música, as vezes desafinada, mas que ainda assim quer comunicar algo , ainda que não haja quem queira ouvir.
Perdão, mas discordo de você ao dizer que todas as minúcias já foram faladas
Como você disse: a vida é movimento. Os registros feitos aqui são retratos de situações muito específicas, realidades pessoais de uma pessoa imagina que diferem muita das possíveis percepções de outras pessoas.
A construção do texto vem de histórias que ouvi, vivi ou li; são consequências, leitura a partir de realidade de uma ou mais pessoas. E mesmo o pensamento é tão plural que não há como fazer um julgamento decisivo a respeito das coisas.
Claro que “tudo” ainda não foi falado. Estamos vivos: é um processo dinâmico!
A liberdade das percepções, dos sentimentos pontuados, da existência da individualidade é o que marca os personagens que vão sendo registrados aqui no “Memórias da Escrita”.
Mas isso que digo quer dizer que lhe agradeço pelas intervenções, pois sua individualidade e o que pensa também está registrado.
Abraços
Obrigada Érico pelo carinho do registro.
Pela liberdade que nos da´de nos expressarmos até mesmo prá dizermos que ainda temos muito a dizer .embora algumas vezes isso possa parecer repetição .Como a música que muitas vezes a consideraremos plágio se não observarmos a sexta ou a sétima nota.Pois apesar de sermos únicos, temos a mesma origem.Nascemos na idéia de Deus, prá depois nascer de nossos pais sejam eles quais forem!
Vc é muito inteligente!Admiro isso!