O livro perdido

Publicado: 21/05/2010 em Sem categoria
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Lost book - unknown author

Sobrevive-se ao que não é tão normal pois é exceção, embora sua repetição sobreviva à condição do aceitável. Não sei se o aceite é um castigo pela entrada desta exceção como novidade, pela condição de permanecer no alerta do que contém em sua excessividade ou mesmo pela exclusividade, o gostinho obscuro de manter o suposto elo com o algo que surpreendeu e permanecerá cultivado no secreto jardim das plantas carnívoras. O que devora é também o que alimenta e, não fosse sua voracidade, permaneceria no cotidiano simples que repasso a outros como minha vida.

Acompanho-me cativo pelas exceções: elas dão força para quando voltarem e, mesmo não me surpreendendo, trarão a memória do alívio de meu cárcere; a perpetuação de uma redenção já não tão obscura nem tão nova, mas do dia em que tive a coragem de aceitá-la, como um bode cuida de galinhas ou como a águia cega se contenta com minhocas próximas.

Este verdadeiro mundo novo me traz uma nova dimensão de vida. As certezas que eu tinha já não são tão convictas como a chatice cultivada pelas necessidades de um mundo que não escolhi, vivi e vivo, mas que me convém em minha sobrevivência; que, aliás, é o ponto de sobrevivência onde não tenho muitas opções, onde encontro as pessoas que, sem opções, carregam carros de compras para as madames pasteurizadas e suas máscaras, e homens de toda idade e suas culpas – enquanto paqueram comigo e, eventualmente, serei um de seus taxi-boys. Assim como a inutilidade das compras, ser inútil me traz um poder carregado de tintas em que gemem seus gritos de alerta. Eu, um ser, sou tão-somente viril, o que é útil não sou eu, mas eu vejo a cara de inutilidade de uma massa falida. Vejo a cara crua da civilização. Isto me torna útil.

Oportunamente, estarei vendendo alguns aditivos para outros insatisfeitos em suas inutilidades e os verei sorrir pela graça da hora, aquela invenção alucinada de um sorriso maroto e ingênuo do nada que representa. Dependendo do quê, os verei arrastando ou buscando palavras excitadas de um soluço inteiro de entrega ao outro lado do que os continua a corromper. Soltarei gargalhadas sem pele, mas compartilhando o sem-zelo destes momentos também fugazes.

Levarei executivos molhados em meu táxi lunar, prometidos para o próximo encontro a vir no destino breve: com minha licença encontram o tiro certo para encarar um dono de empresa chato fechar um contrato sério, tão sério como um investimento em milhos transgênicos adubados com a essência do aspartame, que corrói os pulmões dos pobres trabalhadores dos campos. Eu vi um rapaz de 40 anos com pulmão de 70 anos. Eles sabem e riem. Eles têm 150 anos de pura perspicácia imaginada em seus círculos de vaidades.

Dividirei com os companheiros a cesta básica que me socorre, por companheiros do passado nem tão longínquo, mas que me trazem a consciência própria de um presente impensável. Mas estarei digno, apesar de tudo. Passarei alguns dias sem comer. Alguns pela miséria da exceção a que me propus e a náusea conseqüente. Outros pelas mesquinharias dos burgueses falidos. Outros ainda pela sevícia da orientação civilizatória repreendendo as naturezas.

Nos dias de folga, celebrarei meus amigos do presente, com o gosto que sempre celebrei as amizades que me foram presente, e sucumbirei na saudade, no jardim sagrado das exceções que de mim escondo, pois estão áridas e procuro não olhá-las.

Ao largo de tudo, celebro Mário Quintana: “Eles passarão, eu passarinho…”

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