Obviamente, olho pra ti e não temos garantia de nos vermos, sentimos presença e, bem sei, estamos desacostumados disso. Somos solitários num mundo-vácuo, uma espécie de espera por algo que vai acontecer; parece que nossos sonhos foram embora e ficamos tão quebrados com essa realidade que não sabemos levantar a poeira que nos cobre. Pois que encharcamo-nos de poeira pois é o que nos é possível. Você olha de um lado, eu, de outro, desconfiado se a forma que vejo é algo que me transparece ou consigo parecer. Ficamos em observação contínua, lapso dos sons que temem um momento de expressão de algo um pouco mais parecido com os algos que costumávamos nos deflagrar nos diversos espelhos e câmeras espalhados por este grande concreto acimentado, enquanto nos encantamos com novas cores. Encantamo-nos tanto com a possibilidade de termos outra cor que nosso encanto é espanto, surpresa sem acalanto, sem aconchego, sem o conforto necessário a cada passo que se dá e se vai descobrindo nossas choradas pelas charadas incluídas nas propagandas subreptícias de nossos tão claros viveres. Vivemos engaiolados vendo o sol deitar e se levantar, enquanto os monstros de nossos delírios não são por nós frequentados. Estamos entre os arames frágeis que não sabemos de suas constituições tão vulneráveis, quanto vulneráveis estamos tentando entender onde estamos: fora ou dentro, do quê? O que nos contem, meu Deus ! Onde estamos, onde iremos, onde repousar, onde amar, onde vingar os sentidos de ser?
Blindness, by Jose Saramago






Dicionário Cravo Albin


Érico querido,
gostei demais do “Ensaio sobre a cegueira” que é uma dura crítica aos valores da sociedade.
Me apaixonei mesmo foi pelo livro “Caim”.
beijos
Érico.
Muito me tocou essa sua postagem…
abraços
Ricardo