
Abaixo do espelho das águas
o homem já habitava o mundo da busca de conchas surdas
que não reverberassem sequer seu recolhimento
para alguma suprema necessidade de ser, estar e criar algo
um existir imaginário nas palavras que falam do encontro de justificativas
frente a estática pasma criatura que figurou por dias sempre seguintes
…
Quando a falha cismou de engolir seu reduto
a fantasia de contínuo, de pertencer ao rio, ser e solapar a areia do plano basal
em intensidade própria, sabendo da força inexistente: a densidade da água
a concha que vira escorregando como se entre os dedos seus, vadia
haveria de soar sorrisos: mais um desafio inútil perdido entre cegos e surdos
nada lhe pertencia: a imagem, uma ponte possível, o reflexo, o berço que acolheu o rio
aquilo tudo que o postara olhando a margem impossível de um si e um mundo
…
As palavras ecoam gravemente e são inaudíveis, ininteligíveis
Os olhares propõem poética ou ludicidade à tela dos enigmas alternativos
como único discurso no despojamento a uma fluidez (haveria fruição?)
…
A concha, seu espectro que a pegaria e que o salvaria e à sua própria vontade
inexistiam frente ao trombo da verdade que se hospedava orgulhosa
desde antes, na medula do mundo, quando já não havia futuro
…
Tentava sorrir com o dente descolado mordendo o músculo latente inteiro
o corpo descobrira antes a inutilidade das saídas
quaisquer conexões não mais sustentavam uma existência
…
Vivia de transcendência pois não havia nem ovo nem galinha
big bang, relógios, poeiras cósmicas, buracos negros ou tratados de solidão
pelo extenso pergaminho de seu corpo sem mais história
sem personagens, sem ação, sem roteiro, sem caos, sem presente
…
Vivia livre na indiferença entre a lembrança do não ser ou ser
Colagem de histórias de outros, brincadeiras, cãos sem donos, que renderiam ardência na pele
servil à constante desidentificação do que pode ou restaria, era a dor
ante ter um modo à descoberta do avesso do herói
…
A aridez da base, seu ente desertificado, a boca seca por abstinência
o corpo cede sedento à pura constatação dos fatos
era a dor que não se explica na jornada das apresentações
…
Não tinha amigos no reino pois já sabia da nudez do rei
Não desejava mais as prostitutas que o serviriam, estavam mortas
Vez em quando comovia-se em versos niilistas
pois o acontecido não pertence ao acometido, possuia-o
…
O homem deixara de sê-lo e selava-se entre outras designações
a contragosto, à contramão, aos contratos tácitos, traído e traidor
nada mais regava, embora virasse plantas de onde florescendo ostras
que não lhe cabiam, mas aos transeuntes, severos passantes inquisidores
em sua indistinção, impossibilidade de renovação, impotência generalizada
…
Era somente alvo e deveria regojizar-se em tal flâmula anunciadora
da transluzência de seu implacável perceber
Era feito de argila e pigmentos, só não sabia como fazer
E a ignorância de seu próprio reino confirma seu lugar
no alto da colina, lá, onde nem passarinho, somente condores
…
Não há o que vencer ou, enfim, perder
.
[eb - 29.01.2011 - 06:06h]
Gostar disso:
Seja o primeiro a gostar disso post.
como sempre, genial, amigo.dê notícias…
Aluísio, que bom que já esteve aqui ! Estive esperando que você desse notícias…rs… “O seu tempo”!rs… Mas dou notícias logo.
Oie.Erico.. voltar ao passado, pra mim tem uma conotação tão diferente da sua. Pra mim é um resgatar.. de forças que foram deixadas lá.. Como é a unidade de ser. Naquele mundo, não existia personagens, porque era apenas o ser, em sua sobrevivência, e o conquistar a inteligência para sobreviver. Ser fazia parte desta sobrevivencia. Não existiam contratos… Os contratos existiram quando começou a divisão de terras, entre os herdeiros.. Ai o mundo mundou de cara. Mudou pra bem pior. Porque ai ter representava antes de tudo, o poder!!!Aí ser, deixou de ser o mais importante, para ter o privilégio, daquilo que as terras podiam gerar. Um livro lindo que eu li a pouco tempo, me apaixonou com estas histórias, do começo da idade média…. Mas vou lembrar e te passo…
Querida Lia,
A expressão “passado”, aqui, é utilizada como atônito, abismado, surpreendido etc. Utilizo “(ULTRA)PASSADO” como o superlativo desta forma de significação. Portanto, não me remeto somente ao passado distante, mas ao passado recém-presente, o “instante já” que já passou. Portanto, a observação deve ser feita como constatação do presente contínuo,ok? Talvez, observando o título sob a variável nesta significação, venha a deter uma visão diferenciada sobre o que o texto constata…
Obrigado por vir aqui!
Beijos