São 17:46h de algum dia que precede o ano do fim do mundo. E a lua já me percebe e recebe. Passeio nú, vagamente, pelos espaços em que a noite aceita minha brancura sem que nos firamos. Nossas existências flutuam entre o nada e o tudo, frequentando o buraco negro de nossas reflexões, de nossas almas e daquelas coisas que, queiramos ou não, existem.
A cidade ronda como polícia aflita de suprir o mercado de multas.
Existimos invisíveis a tudo. Ninguém nos olha – se é que olham.
A noite é o lugar onde as pessoas se projetam em sorrisos largos de imensa fragilidade, cansados de não ser durante o dia inteiro, sob o sol causticante – no que continuar não sendo, mas exercitando os músculos da face, traz algo de auto-complacência geral. Assim pensam, vão refletindo os nortes desnorteados de suas vãs existências.
No entanto, qual existência deixa de ser vã? Entre os propósitos, as metas, as guerras de sobrevivência, a alienação imposta, a impotência enfurnada na essência de cada, qual será o próximo passo? Não importa. Os planejamentos continuam confirmando a próxima viagem para o exterior e a mobília nova, além da troca do carro e o vinho importado que degustarão com os escolhidos que elogiarão a fina escolha.
Vejos rostos flamejantes em restaurantes, mesas de casais distantes, homens que adoram se divertir com os amigos, mulheres que adoram parecer-se entre si, serviçais que bolam de rir com cada um, entre eles, enquanto fingem cumprir o dever, e o dono da casa, atolado em dívidas, louco para pagar as contas e as dívidas no banco.
Passando a rua, atravessa-me um guardador de carros que me pede um cigarro. E eu não tenho. E ele começa a cantar uma música romântica, daquelas que prometem a desgraça do ser amado que o deixou. A praga não me pega, pois mexe antes com seu sistema digestivo, já tão corroído pelas exclusões diárias. Ouço o quanto é bonita a voz que vai se afastando.
Chego à pracinha. Ainda tenho tempo de olhar para os diversos casais: a garota com a perna sobre a perna do namorado que com a rigidez de seus óculos pretos fala coisas repletas de convicção e, pouco a pouco, nela, as lágrimas começam a escorrer; dois rapazes em suas armaduras tentam conservar a imobilização do que seus corpos querem falar; dois velhinhos, ela semi-alheia, ele altivo, ambos olham aquele hiato dos movimentos em que carros passam a trinta e seis quadros por segundo – sem ver quaisquer deles, são só fumaça – e, eventualmente, sorriem um para o outro (há algo no ar dos que passam por tantas caminhadas juntas, onde um já entende o silêncio do outro e nos segundos se encontram). Ninguém reclama da secura das plantas, das árvores ressequidas pelo descuido, da terra queimada, dos bancos de cimento latentes de queda. O espaço é suficiente.
Observando que já vi algo, sinto-me abraçado pela lua quando a envolvo com meu olhar. As nuvens formam seres magníficos e não há sinal de chuva para acabar com o calor que sinto. E, quando penso, os ventos vêm me abraçar.
Olho pras plantinhas que tanto queria no jardim, que não tenho, na frente de meu apartamento térreo, mas que ocupam a vaga do carro, que também não tenho, para a felicidade do meu olhar de vê-las crescendo devagar, verdejando as saúdes, e se diferenciando para mim e para quem quiser ver.
Está na hora de abrir a porta do meu pequeno reduto de reflexão. Repleto de umidade, humildemente, ainda, aceito a alergia que me ataca. O menino tenta reclamar, mas o homem cheira álcool para vencer o acúmulo. Não há descuidos. Eles não me pertencem.






Dicionário Cravo Albin


Parabéns Viajor da Luz Erico baymma, você escreve como ninguém. Invejo sua facilidade em tratar com as palavras no expressar dos próprios sentimentos e emoções.
Grande abraço
manoellima-oviajor
Querido Manoel,
Muito obrigado pela sua atenção sempre!
Depois lhe escrevo.
Abração
Érico